Amizades e Gibis

Eu não sei porque, mas quando criança tive poucos amiguinhos que gostassem de ler gibis. Não sei se era porque os pais não os incentivavam, ou porque não tinham condições de comprar, ou se simplesmente não gostavam de perder preciosas horas de futebol e/ou pique com um “livro” na mão. O fato é que o assunto “gibi” não fazia muito sucesso no recreio.

O primeiro amigo que fiz por causa de um gibi foi o Jorginho. Éramos da segunda série do primário (hoje, terceiro ano do Ensino Fundamental) e uma vez ao voltarmos do recreio eu o vi lendo um “Almanaque Disney”, de um número que eu não tinha. Puxei papo e ele acabou me emprestando a revista, que foi devidamente “devorada” ao chegar da escola. De lá pra cá já são 22 anos de amizade e digo, com toda segurança, que, tirando minha família, ele é o meu amigo mais antigo.

Juntos, eu e ele investigamos a verdade por trás de uma antiga polêmica biológica: afinal, os pandas são realmente ursos? Com a ajuda de uma enciclopédia de vida animal que fora presente do meu Tio Diógenes “descobrimos” que os pandas não são ursos, mas procionídeos, a mesma família do quati! Fizemos planos para os milhões e milhões de dólares que ganharíamos quando anunciássemos nossa descoberta ao mundo. Os milhões de dólares nunca chegaram mas nos divertimos bastante naquele dia. Também começamos a estudar inglês juntos no CCAA, na mesma sala. Lembro do primeiro dia de aula, a professora perguntando: “Por que vocês vieram estudar inglês?”. Todas as crianças estavam com aquelas respostinhas ensaiadas em casa: “Ah, porque o inglês é muito importante”. Quando chegou a minha vez de responder, disse: “Eu não gosto de inglês. Estou aqui porque fui obrigado”. Foi a deixa para as outras crianças se rebelarem: “Eu também estou aqui obrigado!”, “Eu não queria ter vindo”, … Motim na sala! 🙂

Outra situação hilária foi na minha colação de grau no Pedro II. Estávamos atrasados e decidimos ir pra lá de trem. Não lembro se a SuperVia já operava na época (1996), mas o trem que pegamos, no sábado de manhã, era uma lixeira completa. Fomos eu, Jorginho, Walter e Bruno. O trem parou na estação de Madureira, entramos, Jorginho se sentou ao lado de uma menina, de frente pra porta por onde havíamos entrado. Ele foi o único que sentou. Quando o trem começou a sair, devagarzinho, vimos uns borrões voando pela porta, ainda aberta, pra dentro do trem. Foi só o tempo de girar o pescoço e ver o Jorginho e a menina cobertos de cascas de frutas e pedaços de verduras! Tinha uma casca de batata colada na bochecha dele e um tomate no coque da menina! Fomos sacaneando o pobre coitado até chegarmos ao Colégio. E o sacaneamos por muito tempo depois disso!

Almanaque Disney #190, março de 1987

Almanaque Disney #190, março de 1987

Sempre que vou à casa dele pra bater papo acabamos jogando video game. Teve uma vez que, nós dois já com vinte e tantos anos na cara, estávamos subindo pra jogar quando mãe dele disse: “Jorginho, se você e o Neizinho forem subir pra brincar lá em cima, avisa a ele pra não encostar na parede porque está pintada”. É fato: seremos eternas crianças não só para as nossas mães, mas para as mães de nossos amigos também. Impagável!

Muitos causos, muitas histórias, muitos campeonatos de videogame em locadoras, muitos carnavais em Jaconé. E pensar que tudo começou com um Almanaque Disney…

P.S.: e o gibi ainda trazia uma adaptação de “20.000 Léguas Submarinas” protagonizada pelo Mickey!

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